Caminhos que a evidência científica não traça
Enquanto terminava um trabalho do mestrado em antropologia, percebi o quanto ele se entrelaçava com a minha prática como médica. Era para ser apenas um exercício acadêmico, mas, no fundo, era sobre escutar o que já ecoava há tempos dentro de mim.
Minha pesquisa nasceu dos atendimentos em territórios urbanos marcados por muitas vulnerabilidades e também por resistências potentes. Ali, nos encontros com mulheres, famílias, lideranças comunitárias, fui percebendo que o cuidado vivido no cotidiano não cabia nos moldes que aprendi na universidade. Ele se manifestava em formas inesperadas: em banhos de ervas, em rezas, em silêncios atentos, em redes de apoio informais, mas profundamente eficazes. Era uma medicina feita de vínculos, espiritualidade, afeto e partilha.
Foi ao longo da residência em Medicina de Família e Comunidade que comecei a buscar referências que me ajudassem a compreender tudo isso com mais profundidade. E foi assim que me aproximei da antropologia. De forma tímida, quase como quem chega devagar num lugar novo, mas logo sente que ali há algo a ser aprendido.
Mais recentemente, ao escrever esse trabalho para a disciplina de História e Teoria Antropológica, orientada pelo professor Antonio Motta, conheci uma ideia que me atravessou por inteiro: a antropologia reversa. Foi ao ler Roy Wagner e Sonia Maluf que entendi que o campo não é apenas o lugar onde a gente coleta dados. É um espaço de relação. E que as pessoas que acompanho não são apenas objeto de estudo, mas também me observam, me interpretam, me devolvem perguntas.
Isso me fez lembrar de muitas mulheres que encontro no dia a dia: mães, parteiras, cuidadoras que não só praticam o cuidado, mas também pensam sobre ele, adaptam, recriam, fazem caber em suas realidades. Quando escuto com atenção, percebo que também sou pensada por elas. Esse deslocamento, de quem observa para quem é observada, tem me ensinado mais do que qualquer teoria.
Francisco Apurinã diz que é possível pensar a universidade a partir da aldeia. Essa frase reverberou em mim. Me lembrou que muitos saberes populares, indígenas, periféricos, não precisam de carimbo acadêmico para existirem. Eles já são conhecimento. Não negam a ciência, mas mostram que ela não dá conta de tudo, especialmente do que pulsa nos corpos, nos afetos, nas crenças que curam.
Sonia Maluf propõe que a gente reveja essa fronteira entre “nós” e “os outros”, especialmente quando esse “outro” mora na mesma cidade, usa o mesmo posto de saúde, mas tem seus saberes sistematicamente deslegitimados. Já Márcio Goldman lembra que o campo não é lugar de confirmar certezas, mas de produzir pensamento em relação. E isso me ajuda a compreender que quando uma mulher diz “fé também cura”, ela não está apenas falando de religião. Está nos dizendo algo profundo sobre corpo, cuidado e mundo.
Essa experiência tem me mostrado que uma escuta verdadeira é sempre um gesto ético. E que o conhecimento pode nascer em lugares improváveis: nas cozinhas, nos terreiros, nas filas do posto. Basta que a gente se disponha a escutar de verdade. E leve a sério o que essas vozes nos dizem.
Simplificar a promoção de saúde é o meu propósito.
Através de um acompanhamento integral, construiremos uma jornada de cuidado continuado com ferramentas práticas para uma mudança de estilo de vida duradoura.
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