Queimação, refluxo, empachamento… preciso fazer uma endoscopia?
A queimação na boca do estômago que aparece depois das refeições. O refluxo que piora ao deitar. A sensação de empachamento, como se a comida permanecesse parada por horas. Os arrotos frequentes. O desconforto que vai se acumulando ao longo do dia. Será que preciso fazer uma endoscopia?
A Endoscopia digestiva alta (EDA) é o exame padrão- ouro para o diagnóstico de lesões estruturais que causam dispepsia e doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), condições que afetam cerca de 44% da população brasileira ( Castro;Amorim, 2019). Mas será que todo mundo precisa fazer uma endoscopia?
Muita gente chega à consulta já pensando na endoscopia. Às vezes porque conhece alguém que descobriu gastrite. Às vezes porque pesquisou no Google. Às vezes porque conviver com sintomas por muito tempo também cansa e angustia. E Embora a endoscopia digestiva alta seja considerada o exame padrão-ouro para avaliação de lesões estruturais do esôfago, estômago e duodeno, não significa que ela seja necessária para toda pessoa com sintomas digestivos.
Na prática, muitos sintomas digestivos acabam recebendo o mesmo nome: gastrite, refluxo ou “problema no estômago”. Mas a medicina tenta organizar melhor essas experiências.
Chamamos de dispepsia um conjunto de sintomas localizados na região superior do abdome. Entre eles:
- dor ou queimação na boca do estômago;
- sensação de estômago pesado;
- empachamento após comer;
- estufamento;
- saciedade precoce;
- náuseas;
- arrotos frequentes.
A dispepsia é classificada em orgânica e funcional (Oustamanolakis; Tack, 2012). A dispepsia funcional estão relacionadas a alterações de motilidade, acomodação e velocidade de esvaziamento gástrico que podem provocas os sintomas típicos de dispepsia. São quadros que não apresentam alterações nos exames complementares como endoscopia digestiva alta, teste da urease ou manmometria, por exemplo. A dispepsia orgânica é explicada por doença estrutural como doença ulcerosa péptica, DRGE, doença biliar, pancreatopatia, neoplasia, etc.
Na maioria das vezes, a dispepsia está relacionada com a alimentação, tanto com relação ao momento do aparecimento quanto ao tipo e à quantidade do alimento consumido. (Chen et al, 2025). Para esses casos, foram definidos critérios para seu diagnóstico, atualmente os Critérios de ROMA IV.
Mas o quadro clínico e o exame físico pode nos direcionar para causas orgânicas específicas como úlcera péptica duodenal, doença biliar, gastroparesia, pancreatite, parasitose intestinais, DRGE.
A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) costuma estar mais relacionada à pirose — aquela queimação que sobe em direção ao peito ou à garganta — e à regurgitação, quando o conteúdo do estômago retorna.
Mas o corpo raramente organiza os sintomas de forma tão separada e essas sensações frequentemente se misturam. E é justamente por isso que uma boa avaliação clínica continua sendo mais importante do que apenas “pedir exames”.
Nem todo desconforto aparece na endoscopia
Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis de compreender.
Existe uma expectativa muito forte de que todo sintoma precise necessariamente corresponder a uma alteração visível no exame. Como se o corpo só legitimasse o sofrimento quando ele aparece descrito no laudo. Mas uma parcela importante das pessoas com sintomas digestivos apresenta endoscopia normal. Isso acontece porque muitos quadros de dispepsia estão relacionados não a lesões estruturais, mas a alterações funcionais do trato gastrointestinal:
- mudanças na motilidade;
- alterações na acomodação gástrica;
- maior sensibilidade visceral;
- velocidade de esvaziamento do estômago;
- e até interações entre sistema nervoso central e sistema digestivo.
Ou seja: o desconforto é real, mesmo quando o exame não mostra uma úlcera, erosão ou inflamação importante.
Então por que não fazer logo a endoscopia?
A endoscopia é excelente para investigar doenças estruturais do esôfago, estômago e duodeno. Mas ela não responde todas as perguntas sobre o funcionamento do corpo.
Ela mostra a mucosa. Não mostra:
- qualidade do sono;
- níveis de estresse;
- ritmo alimentar;
- excesso de cafeína;
- sobrecarga emocional;
- ansiedade;
- privação de descanso;
- nem a forma como o corpo vem reagindo ao próprio cotidiano.
Por isso, muitas vezes o cuidado começa antes do exame, com uma anamnese cuidadosa.
Na ausência de sinais de alarme, é comum que a primeira abordagem inclua pequenas mudanças fazem diferença importante: comer mais devagar, evitar deitar logo após as refeições, reduzir álcool, cigarro, excesso de gordura ou refeições muito volumosas à noite, por exemplo.
(Não como regras rígidas e universais. Mas como formas de observar o que piora e o que melhora no próprio corpo.)
Mas existem situações em que a endoscopia é importante.
Alguns sinais aumentam a chance de doença orgânica relevante e merecem investigação mais cuidadosa. Chamamos esses sinais de “sinais de alarme”. Entre eles:
- perda de peso involuntária;
- anemia;
- sangramento gastrointestinal;
- vômitos persistentes;
- dificuldade para engolir;
- dor ao engolir;
- massa abdominal;
- histórico familiar de câncer gastrointestinal.
Além disso, pessoas que iniciam sintomas após os 50 anos geralmente precisam de investigação endoscópica, especialmente em populações latino-americanas.
Nesses casos, a endoscopia deixa de ser apenas um exame “para conferir” e passa a ter impacto real nas decisões clínicas.
“Meu exame veio cheio de alterações”. Isso significa algo grave?
Essa talvez seja uma das partes mais angustiantes após a entrega do resultado.
A mucosa do trato digestivo também carrega marcas do tempo, de inflamações antigas e de processos naturais de reparo. Assim como a pele acumula cicatrizes e manchas ao longo da vida, o estômago também passa por mudanças que nem sempre têm relevância clínica. Por isso, muitos achados descritos na endoscopia são benignos e incidentais. Outros realmente precisam de tratamento ou acompanhamento mais próximo.
A diferença entre essas situações não está apenas no nome difícil escrito no exame, mas na interpretação clínica contextualizada:
- o que explica os sintomas;
- o que exige monitoramento;
- e o que não precisa gerar preocupação excessiva.
Às vezes, a endoscopia é necessária e pode mudar completamente a condução do cuidado, inclusive permitindo o diagnóstico precoce de doenças importantes.
Mas pedir o exame sem uma avaliação mais cuidadosa pode levar tanto a investigações desnecessárias quanto a interpretações desconectadas da história clínica. Da mesma forma, não solicitar uma endoscopia também pode não ser negligência.
Em contexto ambulatorial, a melhor decisão surge de uma anamnese detalhada, da avaliação dos sinais de alarme e da compreensão da relação dos sintomas com a história e o contexto de vida de cada pessoa.
Porque nenhum exame, sozinho, consegue traduzir toda a experiência do adoecimento.
Simplificar a promoção de saúde é o meu propósito.
Através de um acompanhamento integral, construiremos uma jornada de cuidado continuado com ferramentas práticas para uma mudança de estilo de vida duradoura.
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