O quarto ao lado

E se falar sobre a morte fosse, na verdade, uma forma de celebrar a vida?
Poucas coisas nos deixam tão desconfortáveis quanto pensar no fim. Mas evitar essa conversa não nos protege da realidade — pelo contrário, pode nos afastar de decisões conscientes e carregadas de significado. Falar sobre a morte pode nos abrir portas para compreender o que significa, de fato, viver.
O filme O Quarto ao Lado, de Pedro Almodóvar, nos convida a refletir com coragem e sensibilidade sobre temas que evitamos. O que significa ter autonomia no fim da vida? Até onde nossas escolhas são respeitadas, especialmente em momentos tão vulneráveis? Discutir a morte não é negar a vida, mas reconhecer que ela tem limites. Preparar-se para esses limites nos dá a chance de fazer com que a despedida reflita quem somos, o que acreditamos e o que desejamos.
Esse tema também toca profundamente os vínculos que cultivamos ao longo da vida. Estamos prontos para respeitar as escolhas de quem amamos, mesmo quando essas decisões desafiam nossos próprios desejos? Lidar com o fim da vida exige mais do que técnica ou conhecimento — exige escuta, acolhimento e, principalmente, amor. Talvez o maior cuidado que possamos oferecer a alguém seja reconhecer o direito de escrever os capítulos finais de sua própria história.
Quando pensamos em cuidados paliativos, percebemos que o foco não está apenas na morte, mas na vida que ainda resta. É um cuidado que olha para a pessoa como um todo, respeitando sua autonomia, seus desejos e sua dignidade. Cuidados paliativos não evitam a morte, mas buscam garantir que o processo seja vivenciado de forma mais humana e compassiva. Não se trata apenas de aliviar a dor física, mas de reconhecer e acolher também as dores emocionais, espirituais e sociais. Como podemos construir um espaço onde sofrimento, despedida e amor coexistam? Estamos preparados para apoiar quem amamos nesse caminho, respeitando seus tempos, seus medos e seus desejos?
Refletir sobre a morte é também um exercício de liberdade. Essas perguntas que parecem difíceis de enfrentar — como eu gostaria de ser cuidado no fim da vida? Qual legado quero deixar? — são, na verdade, convites para nos conectarmos ao que realmente importa: as escolhas que fazemos, os vínculos que cultivamos e o amor que deixamos pelo caminho. Garantir que a vida seja vivida com dignidade até o último instante é um ato de respeito e celebração.
Algumas obras nos ajudam a pensar e falar sobre o tema de forma sensível e reflexiva. No cinema, filmes como Amor, de Michael Haneke, nos mostram a fragilidade e a beleza do envelhecer e do cuidar; A Partida (Okuribito), de Yôjirô Takita, traz uma perspectiva delicada sobre rituais de despedida; e Patch Adams, de Tom Shadyac, reflete sobre a importância do afeto no cuidado em momentos difíceis. Na literatura, livros como Sobre a Morte e o Morrer, de Elisabeth Kübler-Ross, exploram as etapas do luto e a necessidade de acolher a morte; Morrer: Um Dia Aprendemos, de Ana Claudia Quintana Arantes, nos convida a viver com mais plenitude; e O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, aborda o luto de forma íntima e transformadora.
Falar sobre a morte não precisa ser um tabu. Pelo contrário, pode ser uma forma de celebrar a vida em toda a sua complexidade, reconhecendo seus limites e honrando seus momentos. Que possamos encarar esse tema com coragem e afeto, porque o silêncio, nesse caso, nos rouba a oportunidade de viver plenamente.